Ao tempo

Há vezes em que sinto você voando sem tocar o meu rosto e que lhe perdi nos meses e anos, pensando que resolveria essa ou aquela questão amanhã.

Sinto-me com tanto o que fazer, conhecer, ler, amar, viver, sorrir, dividir que não sei por onde começar. Talvez a palavra certa não seja “começar” e sim “continuar”. Independentemente da nomenclatura, com frequência pauso a vida e a recomeço. Como se eu caminhasse por fases, trimestres ou qualquer outro aglomerado de…tempo.

Hoje, achei que minha carreira estaria diferente. Já fiquei desempregado por mais tempo que imaginei, ganhei mais e depois menos, chorei na copa do conjunto 41 e morri de rir na minha mesa (a famosa baia). O fato é que me sinto perdido. Vou tapando cada minuto com planos, me acalmo acreditando que tudo dará certo e na hora certa. Isso é o que me dizem. “ Você é novo, inteligente e brilhante, logo tudo se encaminha.” Mas quando paro pra contar quantos dias se passaram desde a última vez que pensei nisso, me assusto. Vou fazer 26 anos. Não sou novo há algum tempo!

Penso no tempo em que perdi com amores mal resolvidos, com casos vazios, com sexo sem sentido. Ao mesmo tempo, lembro do que ganhei com cada um dos minutos estéreis. Eu disse, estou confuso. Sinto saudade daquele que chegou perto do coração e dos minutos que passamos juntos. Foram poucos, mas cresceram em mim mais do que a cronologia poderia computar. Com ele, centenas de minutos significaram, passaram em paz, com carinho, cheios e vazios de palavras, em noites de sono ou ao som daquela banda nova. E são, também, os minutos que nos separam. Cada um com seu tempo, e no seu tempo, desencontrou-se do outro. Os minutos que nos aproximam são os mesmo que nos dividem, em algo mais pálido.

Claro, falar da paixão antiga parece sempre mais bonito do que foi a realidade, mas são os minutos entre passado e presente que me lembram o quão bom poderia ter sido passar  mais minutos lado a lado, pé com pé.

Minutos de brigas com os pais, irmãos, amigos, namorados, amantes e desconhecidos. Minutos perdidos, arrancados das minhas mãos por mim mesmo. E o tempo vai passando, os segundos se amontoam sem esperar eu começar a dieta, falar com ele de novo, pegar firme naquela tarefa. Você, tempo, assiste eu correr atrás do meu próprio rabo, hora confuso, com medo, tapando os olhos pro que há a minha volta e hora feliz, decidido e verdejante.

Acho que eu preciso de mais minutos em paz comigo, em reflexão do que fazer com o meu tempo e com a vida. De forma muito simplista, sou um relógio tiquetaqueando até um dia, provavelmente sem aviso, parar. Pode ser hoje, pode ser amanhã, daqui 60 anos. Mas viver cada minuto, clichê assim mesmo, com mais amor, sinceridade e bondade pode fazer com que você dure mais. Ser mais seletivo, objetivo, esforçado, focado, amoroso, sincero (sem ser grosseiro), generoso, amigo, saudável…mais feliz – a cada minuto. Se eu sou o dono do meu tempo, é hora de acertar os meus ponteiros. Depois com os dele. Os nossos, enfim.

1 Comentário

A você que quero longe

Quero você longe, pois você se engana. Disfarça as inseguranças, camufla os sentimentos e nega a realidade. Segue uma verdade deturpada, criada para a defesa, o isolamento e a solidão. Cego de sensibilidade, não consegue ler o óbvio e esconde o amor como uma fraqueza.

Quero você longe, pois não sabe amar. Talvez nem a si mesmo. Não sabe doar, partilhar ou oferecer apoio. Sua incapacidade de amar se resume na sua solidão, que já foi a minha. Você atropela as vidas, colide consigo e freia quando é tarde.

Quero você longe, pois você é raso. Troca o essencial pelo superficial; o afetivo pelo físico. Confunde a vida, destrói as prioridades, rechaça os valores e estupra o carinho. Você é sempre pelas metades, boas ou ruins. Mas sua constante é a falta, a dor do vazio e a fome do afeto.

Quero você longe, pois você é o sinal de menos. Subtrai dos outros para somar em si. Você divide, despedaça e quebra o positivo. Consegue perverter o singelo, carregar a leveza e diminuir a alegria.

Quero você longe, pois você não me faz feliz. Provocou o pior em mim e trouxe mais sofrimento que imaginei. Quero distância para não esbarrar na sua confusão, presenciar sua frieza, desprezo e indiferença.

Quero você longe, pois você não é bom para mim. Não é, entretanto, alguém ruim. Você apenas não me faz o bem, não causa a felicidade e desnutre um amor. A sua mágoa contaminou o amor que existia.

Quero você longe, então, não dê notícias, não interrompa o silêncio com alguma declaração e não se arrependa novamente. Não seja mais irresponsável e egoísta. Não traga de volta tudo o que você levou, quando foi embora. Fique aí e lembre-se: eu não quero lhe esquecer, para não encontrar outro você.

5 Comentários

Carta para Irritação

Irritação, olá. Às vezes você vem e aparece sem ser convidada. Muito mais do que eu gostaria, inclusive. Grande parte das vezes por motivos tolos, por exemplo, pelo  excesso do mesmo comentário das pessoas: “o show do fulano foi de-mais”. “Aham, ok, bom para você”. Pode ser, também, quando o celular trava. Eu queria basicamente fazer uma ligação naquela hora e naquele instante, mas parece que apesar do advento dos tablets, das televisões 3D, dos próprios celulares 3D, o botãozinho de “End Call”, tecnologia analógica, teima em não funcionar . Você fica, então, escondidinha nessas besteiras, por traz das frases soltas, dos botões problemáticos, entre os papéis derrubados, nas pontas de lápis sistematicamente quebradas e, principalmente, no delay da televisão a cabo.

Nem sempre você me pega, pois eu sou consideravelmente resistente. Dependendo do dia, não estou nem aí para os seus truques. Sei que os meus amigos têm mais é que compartilhar a alegria do show, que eu estou apertando muitas vezes o teclado do meu BlackBerry, que se eu não segurasse sete objetos de uma vez as coisas não cairiam e que, na pior das hipóteses, existem objetos sensacionais chamados lapiseiras. E quanto à transmissão a cabo, eu adoro ler. Por isso lhe disse acima, essas são as vezes onde você aparece tola, rasteira, trajando pantufas e me deixo levar pelo mau humor e pelo nervosismo. Bobo mesmo sou eu que, vez ou outra, caio na sua.

Só que você aparece, também, vestida de gala e pronta para participar de uma pauta importante toma a minha paciência, mina minha calma e me faz sofrer.  E eu posso demorar muito a perceber porque está aqui, afinal eu nunca lhe convidei. Porém, dias depois vejo que você veio por conta da espera pelo o que eu quero muito, pela frustração de algo que ainda não aconteceu, pela decepção com o que já se foi e pelo desapontamento comigo mesmo.

Nessas horas, você preenche sutilmente as lacunas dos momentos e começa a roubar o lugar de outras sensações muito mais dignas como a alegria ou a serenidade e que, sim, são convidadas. Espalha-se como um erva daninha safada, uma parasita sanguessuga do discernimento, do bom senso e da maturidade.

O fato é que eu estou muito mais inteligente que você, seja de chinelo ou de fraque. A cada dia e ano eu aprendo melhor a lidar com sua furtividade sem passar por constrangimentos. E venho ficando bem satisfeito com o resultado. Então lhe envio essa carta, para lhe dar este aviso e já alertar que se afaste. Eis uma prévia do meu dossiê contra você:

 Seu convite para festa: ansiedade.

 Sua bebida preferida: impaciência.

Seu canapé: afobação.

Eu sei que você só aparece na presença desses itens e não existe mais quase nada disso aqui, sua arroz de festa. Olha, vou até parar de escrever para não me exaltar com você, pois pode ter certeza de que não vou me irritar, simplesmente você não merece mais meu tempo. Então, nem me responda essa carta, muito menos RSVP.

Grato,

Rafael.

2 Comentários

À Barriga

Querida Barriga. Querida, não, porque “querida” denota carinho. Dona Barriga, como vai? Sim, Dona Barriga, pelo menos demonstra respeito. Sabe, Dona Barriga, minha relação com você é esquisita. Aqui na minha vizinhança, a senhora não é nada bem-vinda. Não sei, não combina com a minha decoração, fica meio fora de contexto, definitivamente um peixe fora d’água. Já quando está por aí, parasitando os abdomens alheios, você pode ficar mais bonitinha. Muitas vezes, eu já te elogiei: “olha que barriguinha charmosa, dá um ar de humanidade, um ar de marido”. Porque os defeitos deixam, sim, as pessoas mais interessantes. Só que, definitivamente, você não é o meu defeito do bem. Nada pessoal, viu?

 A gente realmente não combina, desculpe. Digamos que são personalidades incompatíveis. Se isso te consolar, pode ter certeza que o problema é comigo e não com você. Você á a barriga certa no momento errado e certamente vai achar alguém muito especial, viu? Você já combina com uma porção de pessoas. O Jô, por exemplo, está ótimo!

Veja, Dona Pança, eu assumo a minha parcela de culpa no nosso relacionamento. Você não se instalou na minha vida sozinha. Lembro muito bem de como fomos apresentados. Nossos amigos em comum, o Seu Chopp e a vaca desgramada da Dona Gordura fizeram as honras muitas vezes. Bobo fui eu que não dei valor para você, achando que só vinha passar um verão, uma chuva, como diriam os antigos (que também lhe conheciam muito bem). E você foi se mudando aos poucos, sem eu perceber e um belo dia, quando dei por mim, você já estava de mala e cuia, ocupando muito mais espaço do que eu gostaria. Sua raposa!

Eu não sei se já te contaram isso, mas não tem um documentário sobre doenças do coração, gordura, colesterol ou coisa que os valha que não frise “a gordura abdominal é a mais prejudicial para o coração”. Preciso dizer mais alguma coisa para você? Sério, Dona Redonda, se toca. Eu sei, eu sei. Assim como as enchentes, a culpa também é da população. Então, vamos fazer um acordo? Pelo menos um pedido? Seja mais devagar para chegar e mais rápida para sair.

É hora realmente de colocar um ponto final nessa relação. Você me sufoca, literalmente. Minhas roupas me apertam. Cada latinha de refrigerante gera um movimento de reflexão indesejado sobre calorias, culpa, deveres, exercícios, suor…Chega! Sai daqui! Te exorcizo.

Você pode ficar próxima da minha vida, próxima ao meu corpo, mas entenda de uma vez por todas: fique sempre fora dele. É! Sai fora, raspa o gato, rapa fora, vaza, pica a mula, se pirulita, evapora! O que eu não quero é te perder, porque quem perde Dona Fofa, pode achar. Mas olha, saibe que como apoio de lombar, você encaixa bem. Mesmo assim, to-tal-men-te dispensável.

Dona Barriga, espero que você morra do coração.

8 Comentários

Para Fernanda Young

Querida Fernanda, prazer, sou o Rafael! Você não me conhece mas, claro, eu conheço você. E você é um dos motivos por este blog existir, pelo menos do jeito que ele é. Então, nada mais justo do que minha primeira carta ser para você.

Te conheço há muito tempo. Tudo começou numa campanha da Ellus e, olha, faz bastante tempo. Você devia ser muito cool já naquela época. Escritora, urbana, nova, moderna e mãe! E eu, bem criancinha, não te conhecia. Poderia lhe dar esta data, mas quebraria o encanto. Sem Google pra gente. Enfim, a campanha era linda. Você recitava uns poemas durante uma filmagem moderninha com um jeito de lado B. O diretor usou um filtro bacana, uns ângulos fechados no seu corpo, nas tatuagens, o seu contraste na natureza e no jeans numa proposta urbana-bucólica e, finalmente, a campanha assinava “Ellus Young”. Olha, marcou. Eu não sabia, mas quando cresci, a marca virou minha queridinha.

Depois disso, você ficou meio sumida. Pelo menos para mim. A Fernanda Torres tomou seu lugar na Ellus e a vida seguiu. Um belo dia, um programa diferente estreou no GNT. Uma coisa meio nova, uma proposta inusitada: quatro mulheres bem sucedidas, independentes, famosas e totalmente diferentes umas das outras. Claro, o “Saia Justa”.

 Aí você apareceu, atual, cabelo raspado, tatuada, contando da sua filha que tem Madonna como segundo nome, do marido, do apartamento, do catálago da Daslu que afrontava a sociedade, enfim, uma miscelânea de intelectualidade com futilidade apaixonante. Meu número! Claro, às vezes você era meio chata, você sabe, muito irritadinha. Não é à toa que irritar FY virou um esporte.

Nesse meio tempo, porque nesta altura do campeonato eu já tinha perdido o timing da sua fama (tinha mais o que fazer também, né) você já era notória por escrever “Os Normais”. Claro que existiam os boatos sobre o verdadeiro talento ser do Alexandre, seu marido. Eu duvido, pura inveja desses excessivamente intelectuais ripongas que comem cabo de pêra. Você pode ser inteligente, criativa e bonita; tudo ao mesmo tempo. Nem um extremo e nem outro. Por sinal, nunca vi foto do Alexandre. Ele é mesmo gordinho e baixinho?

Bom, seus livros? Nunca li. Se você conseguir me enviar alguma edição, eu agradeço porque, tirando os de poemas, eu não acho nada para comprar. Mesmo, sem brincadeiras. Não sei, dá um jeito? Sei lá, liga pra editora, faz alguma coisa! Reedita. Escreve um novo!

Pois então, Fê – perdoe-me a intimidade, mas você é íntima, um belo dia comecei a ler sua coluna em Claudia. Tudo pela internet. Convenhamos, não sou o perfil da revista. E amei, na hora. “Carta despedida padrão” e “A você que não foi” são espetaculares. A maneira como eu queria mandar aquelas mensagens para dezenas de pessoas ou como já disse aquilo tudo para mim mesmo me deixaram bobo. Mais uma vez estávamos lá, eu e você, frente a frente. A diferença é que eu já era bem crescidinho e sabia muito bem quem você era.

Enquanto isso, eu tinha um blog, com uma querida amiga. Um blog de crônicas. E meus textos do falecido site começaram automaticamente a virar cartas. Mesmo que tivessem títulos genéricos, eram sempre dedicados a pessoas. E olha que isso não teve nada a ver com você, viu. Eu pensava em alguém, situações ou sentimentos e lá se viam breves dissertações sobre as besteiras da vida virarem pequenas odes em formato, claro, de cartas. Passíveis de serem enviadas com destinatários certos, com CEP, endereço, tudo como manda o figurino dos nossos amados correios. (Eu amo os correios e isso não tem nada a ver com você, eu sei).

É isso, minha querida. Agora resolvi voltar à ativa e você me inspirou. Acho que seu registro lá da minha infância me influenciou, ou mesmo o seu talento, que me acompanha até hoje. Isso, na realidade, não importa. O que é relevante é que leio você até hoje.

Mesmo sabendo que você nunca me lerá, a não ser que eu vire um grande escritor como você, saiba que você não é tão irritada assim, pode ser é fofa e meiga, um pouco egocêntrica, ok, mas é um barato. Sério mesmo. Então, estréio com você, também fofo e descontraído. Espero que um dia alguém sinta com minhas cartas o que senti com as suas. Parabéns e obrigado, Fê. Você irrita na medida certa!

PS: Deixa o cabelo sempre raspado?

5 Comentários

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.